Marija Serifovic, vinda da estreante Sérvia, venceu o certame com o seu “Molitva”. Embora não tenha percebido a letra, facto que penso se deveu a não saber uma palavra de sérvio, a música e a maneira como interpretou a canção convenceram-me de que estava diante de um vencedor credível.

O segundo lugar, no entanto, é outra história.
Por momentos, chegou a conceber-se que Verka Serduchka, legítima seguidora do estilo Antonita Moreno, levasse “Dancing Lasha Tumbai(!)” ao lugar cimeiro do pódio.

Cada vez mais, o Festival se torna um mostruário de efeitos especiais, golpes publicitários e Músicas da Tanga ®. Ano após ano, e salvo algumas excepções, aumenta o número de participantes que aposta no “mais-que-festivaleiro”. Passada que é a era da canção pimba (que tentámos levar mais uma vez este ano, com a discípula de Emanuel, Sabrina), entramos na fase do “visual com música de fundo”. Por regra, o palco já por si psicadélico serve de base a performances que se aproximam do Cirque du Soleil, mas sem o mérito artístico.
Será que este é um futuro aceitável para o Eurofestival? Será que devemos aceitar as alterações como algo inevitável e deixá-lo continuar nos moldes que for, desde que continue? É que quer queiramos, quer não, sempre houve mais por trás do certame do que a mostra da realidade musical de cada país.
Na verdade, todos sabemos que o Eurofestival também serve para estimular o espaço Europa ao nível monetário e auto-promover o turismo europeu. Mas mesmo aceitando essa função, a questão que se impõe é até quando o modelo presente vai continuar a servir a Portugal em particular e a Europa Ocidental em geral. Com o progressivo aumento de participantes de Leste e o voto de compadrio e de vizinhança que sempre fez parte do certame mas que cada vez atinge níveis mais perturbadores da imparcialidade na avaliação do mérito de cada canção, é cada vez mais remota a hipótese de termos por cá uma final. Torna-se mesmo complicado ter um representante português que seja nessa mesma final. Então, porquê continuar a investir (e um investimento que não deve ser tão pouco como isso) numa situação que não nos trará dividendos? Para que o resto da Europa fique a conhecer Sabrinas?
Sinceramente não sei o que ache. Mas se calhar, Portugal devia ponderar a hipótese de partir para outros empreendimentos e trazer de volta, sei lá, os Jogos sem Fronteiras. Aí ao menos pessoal com estrelas na cabeça sempre tinha a ver com algum jogo. E escusávamos de, depois de pagar a factura, ficar ano após ano à porta da final, a olhar para dentro e a dizer “Que pena, ainda não foi desta…”